quinta-feira, 5 de maio de 2016

O orgulho de correr pelo certo

Legítimo “filho da fila” (comecei a torcer com 5 anos, em 1977), aprendi cedo que torcer pelo Palmeiras exigia uma compreensão maior do que a habitual. Num deserto de vitórias, aprende-se a sobreviver com a umidade rarefeita no ar. É quando se percebe que essa “água vital”, essa umidade invisível, é a verdadeira essência da vida.

Nossa água vital, aquela que nos alimenta ao simples respirar, é o conjunto de valores que nossa torcida possui em comum. É nele que reside o substrato essencial, o amálgama que une a coletividade. Todas as torcidas o tem. Umas de forma mais explícita, outras nem tanto.

No Palmeiras, a herança cultural familiar sempre foi predominante. O orgulho pelo cultivo de uma vida baseada em valores nobres – trabalho, paixão, coragem, educação, pioneirismo, disciplina – orientam a personalidade palestrina que segue, mais ou menos consciente dessa realidade, mas sempre à ela consonante.

Estando hoje num país onde, como nunca antes, mostra-se parte da sujeira de onde sentíamos tanto fedor, o orgulho em fazer parte da “família” que cultiva valores próprios fica ainda maior. E isso é visto na hora do hino.

Num protesto light contra um país afogado na corrupção e que enaltece a marginalidade (que na década de 60 representava apenas uma alternativa à regimes opressivos), o palmeirense declara em alto e bom tom: “Isso não me pertence!” adaptando o “Palmeiras, meu Palmeiras, meu Palmeeeeeiras!!!” à música do hino nacional, transformando-o no Hino Nacional Palmeirense.

Numa sociedade em que falta referências morais, os times estão tomando essa bandeira. E o Palmeiras no caso, tem um conteúdo gigantesco, sendo uma das torcidas que mais preserva essa “herança cultural familiar” que forma a base da personalidade de nossa torcida. De forma prática, vê-se características em comum em todas as torcidas. As nossas, que não são poucas nem pequenas, que sejam enaltecidas!

Mas há um grande passo a ser dado antes disso. Exaltação da virtude sem respeito à diversidade se transforma rápido em preconceito. É importante cultivar ações de respeito e aceitação ao próximo, independente de sua condição. Valoriza-se as “ações”, sem descriminar as “pessoas”. Como bem sabemos a diferença não nos torna superiores nem inferiores apenas... diferentes!

Mas, que diferença... mesmo sabendo que deve dançar conforme a música, o palmeirense tem orgulho de “correr pelo certo”, num país dos “expertos”, sendo a força que aglutina uma sociedade polarizada, dividida entre coxinhas (bambis) e mortadelas (gambás).

Entre a elite e o proletário há uma família. Que tem orgulho de suas origens e seus valores. Que veste com paixão seu manto e suas cores. E que constrói seu caminho com as próprias mãos. Sendo referência. Sendo invejada. Sendo querida. Sendo amada. Palmeiras, iluminado seja teu caminho.


Gilson, caro fratello... esse post é em sua homenagem, palmeirense gente boníssima que, com certeza, nos deixou cedo demais e vai deixar saudades demais. Esteja na luz irmão, pois sempre caminhaste nela. 

8 comentários:

  1. Galluzzi, excelente texto, como sempre. Tenho 44 anos e também sou um legítimo "filho da fila". Me recordo de minha coleção de revistas Placar, quando ainda era semanal, eu e meu irmão acompanhando as notícias do verdão de Jorginho, Vagner Bacharel e tantos outros. Você encarna a verdadeira alma palestrina, parabéns!!

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    1. Ahhhh Paladino, agora fizeste minha semana. Os "Filhos da Fila" são a última geração forjada no merthiolate que dói. Não estamos aqui pra sofrer, mas hoje é muito mimo e mãozinha na cabeça. De toda forma, estou admirado com a disposição da nova geração por mudanças, é inspirador! Na década de 80 vivemos uma ressaca de protestos que jogou nossa geração na porralouquice. Pelo menos tivemos Futebol Cards, Stamp Colors, Atari e Bicicross! Fora muito jogo no radinho.... rs. Abs!!!

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    2. Galluzzi, realmente essa época remete a uma época boa de infância, apesar da fila, os cards do chiclete Ping Pong eram o máximo, quantos joysticks de Atari destruídos jogando Olimpiadas, fora os fliperamas de rua onde a grana do lanche ia tudo em ficha e no final de semana procurando a melhor frequência pra escutar o jogo naquele radio de ondas médias junto com o pai e o avô do lado, tudo famiglia. Abraço para você e pro Paladino aí

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    3. HAhahahahahhh, é isso Denílson!!!! Minha carreira na delinquência terminou quando minha mãe viu o estrago na panela depois que tentei derreter chumbo pra fazer ficha de fliper em molde de Durepox. E o rádio? Era Motoradio!!! Sensacional... pegava até BBC. Hoje se compra MiniSystem de 1500w pra ouvir Wesley Safadão.... saudosismo de véio!!! rs... Abs!

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    4. Nossa... tô muito velho... Revista Placar, que na época era a melhor opção pra quem gostava de futebol... Futebol Cards!!! kkkkkkkkk Me arrependo amargamente de ter me desfeito da minha coleção a muito tempo atrás... Stamp Color foi um dos primeiros álbuns Rock n' Roll (muito foda!), só faltou falar do Kichute, o primeiro vislumbre de uma chuteira. Eu também, mais um espécime em extinção dos legítimos "filhos da fila"!

      Valeu Denilson e Roberto por essas ótimas lembranças!
      Abraços!

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    5. Bamba, Kichute e Conga. Sem contar o Montreal, tênis antimicrobiel. Valha me Deus... isso tá mais pra museu do que blog! Kkkkk... Valeu Claudjones!

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  2. Belíssimo texto.

    Tenho certeza que muitos "filhos da fila" se identificaram com esse texto.

    Eu entre eles.

    Tbm comecei a torcer pelo Palmeiras aos 5 anos, 1986. "Minha fila", por foi um pouco menor, 7 anos, com o Paulista de 93.

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    1. Scoppia ragazzo, per tutti noi!!!! Derrotas não abalam um coração convicto de sua paixão!!!! Grazie fratello, ci incontraremo nella lotta!!!

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